Pesquisadora brasileira ganha premiação internacional por estudo de câncer

Gabriela Nestal, do INCA, conquista premiação com estudo sobre resistência do organismo ao tratamento do câncer de mama.

15 Ago, 2017

A pesquisadora Gabriela Nestal desenvolveu um projeto inovador sobre a resistência do organismo ao tratamento de câncer de mama e foi uma das sete vencedoras do prêmio Para Mulheres na Ciência 2017.

Na contramão da grave crise que os institutos de pesquisa brasileiros enfrentam com os cortes de verbas e diminuição dos recursos destinados a pesquisa, a biomédica Gabriela Nestal superou inúmeras dificuldades, como racionamento de materiais básicos de laboratório, e conseguiu desenvolver um projeto inovador sobre a resistência do organismo ao tratamento de câncer de mama no INCA - Instituto Nacional de Câncer, no Rio de Janeiro, conquistando o prêmio Para Mulheres na Ciência 2017, do qual irá receber R$ 50 mil de bolsa-auxílio para pesquisa.

De acordo com Gabriela, o estudo tem como objetivo entender por que pacientes que têm a expressão desregulada da proteína FOXK2 - que pode estar envolvida na regulação de elementos promotores virais e celulares -, são resistentes ao tratamento de quimioterapia. Decifrar os mecanismos de regulação dessa proteína que interfere no prognóstico de pacientes com câncer de mama, vai permitir propor uma terapia futura capaz de reverter suas propriedades de resistência para que o paciente responda melhor ao tratamento. Seu grupo de pesquisa, desde 2015, aposta na hipótese de que uma outra molécula chamada AKT, muito envolvida nos demais tipos de câncer, pode estar impedindo que FOXK2 funcione corretamente. Assim, a equipe pretende testar substâncias que possam impedir a ação de AKT e permitir que as células voltem a reagir bem ao tratamento do câncer.

Pesquisadora visitante do laboratório de Hemato-Oncologia Celular e Molecular do INCA -- órgão ligado ao Ministério da Saúde, ela dedica seus estudos no desenvolvimento de um novo tratamento para o câncer de mama analisando as bases moleculares e genéticas de pacientes que apresentam resistência à quimioterapia. O câncer está no seu histórico familiar, fato que a motivou escolher o estudo da biologia tumoral. Gabriela fez mestrado, doutorado e pós-doutorado em câncer de mama pelo INCA e parte de seu pós-doutorado foi realizado na Imperial College London, em Londres.

Uma estimativa do Inca aponta a ocorrência de cerca de 600 mil casos novos de câncer no Brasil em 2016 e 2017. Mais comum em mulheres acima de 35 anos, o câncer de mama, é um dos tumores mais frequentes em mulheres no Brasil e no mundo. Responsável por um quarto de novos casos de câncer a cada ano, os tumores de mama costumam ser heterogêneos e muitos pacientes evoluem para estágios avançados mesmo após terem recebido tratamento. A pesquisadora informa que "90% dos cânceres não são do tipo hereditário, mas sim os chamados cânceres esporádicos, que estão associados ao acúmulo de mutações ao longo dos anos", diz.

Segundo Gabriela, o aumento no número de diagnósticos da doença no país tem três razões para isso: envelhecimento da população, melhora nos diagnósticos e efeitos da industrialização, como maior exposição a agentes carcinogênicos, como alimentação processada. No Brasil, o câncer de mama ainda é diagnosticado tardiamente, o que está associado a uma sobrevida menor. Nos países desenvolvidos, as mulheres são encorajadas a fazer mamografias periódicas e o autoexame, sendo possível diagnosticar a doença precocemente.

O prêmio foi criado em 1998 pela L'Oréal em parceria com a Unesco. A premiação internacional Para Mulheres na Ciência é considerada a primeira dedicada a mulheres cientistas no mundo, e as vencedoras nacionais podem ser indicadas para a competição internacional. “Esse prêmio é uma realização pessoal e um importante reconhecimento na carreira que venho construindo. O apoio do programa, tanto financeiro, como de divulgação, é um estímulo para continuar o estudo e, mesmo que se chegue a um resultado positivo, há outros desafios, como a ampliação do diagnóstico do tumor e do próprio sistema de recepção desses pacientes, que envolve uma organização institucional muito grande”, comenta a cientista.

 

Fotos: Acervo pessoal Reprodução/Green-Mom e Reprodução/TV Tem

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